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domingo, 30 de outubro de 2011
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
Deus é mais
Marcelo Yuka é o baterista do conjunto Rappa. Aos 34 anos de idade ele foi atingido por nove tiros quando tentou proteger uma pessoa que estava sendo assaltada no Rio de Janeiro. Um dos disparos atingiu sua coluna e o condenou à cadeira de rodas.
Numa entrevista ao Programa Conexão Roberto D’Ávila, Marcelo disse que quando estava saindo do coma, e tomando consciência de sua nova condição de cadeirante, sentiu enorme necessidade de “sentir vida” ao seu redor.
Deitado no leito do hospital, o sinal de vida mais próximo era a médica ao seu lado. Em busca de vida ele pegou a mão dela e acariciou. Num gesto brusco a médica tirou a mão, e em tom seco e decisivo, disse: - Sou paga para te ajudar, não ter pena de ti.
Num certo fim de tarde eu e Suzana fomos visitar sua mãe que havia sido internada na manhã daquele dia no hospital Anchieta. Frágil pela idade, mas sem doença grave aparente, esperávamos encontrá-la de alta, pronta para ir pra casa. Infelizmente, um médico trouxe-nos a fatídica notícia que a mãe dela tinha ido a óbito.
Assustada e deixando rolar as primeiras lágrimas, Suzana exclamou: - Não acredito!
Aos berros, num estado de total descontrole o médico a fuzilou com:
- Está me achando com cara de mentiroso? Você acha que estou brincando? Que necessidade tenho eu de mentir?...
Mesmo tendo que administrar a perda da mãe, ela percebeu o descontrole do médico, engoliu o destempero dele e chorou em silêncio, sem uma palavra de conforto do médico nem o direito de saber detalhes dos últimos suspiros da mãe.
Conheço um médico que gabava-se em dizer que às vezes não atendia certas pessoas ou porque estava jogando paciência no computador ou porque estava acompanhando suas ações na bolsa de valores ou simplesmente estava de “pá virada”, como ele mesmo dizia. Ele falava isso de maneira jocosa e não mostrava nenhum arrependimento, ou coisa que o valha, pelo fato de não ter aliviado o sofrimento de alguém. Esse colega é funcionário público bem relacionado, portanto, corria pouco risco de receber uma punição severa.
A vida dele transformou-se quando soube que seu filho, um jovem de 20 anos, universitário, estava com uma doença grave e restavam-lhe poucos dias de vida. Como pai desesperado, gastou todo o dinheiro que tinha na bolsa para curar o filho. Como médico bem relacionado, pediu ajuda aos melhores médicos. Não adiantou. Poucos meses depois o rapaz faleceu. Acho que esse meu conhecido entendeu o cascudo de Deus e nunca mais o vi comentar que desprezara seus pacientes.
Quando dizemos que somos “filhos de Deus”, significa que alguém mais sábio corrigirá nossas atitudes prejudiciais a nós e aos outros.
Não desejo nenhum revés severo na vida da médica do Marcelo Yuka, nem com o médico que berrou com a Suzana. Espero que eles entendam que são grandes, mas Deus é mais.
terça-feira, 11 de outubro de 2011
Marcha contra a corrupção
Na passeata do dia 7 de setembro de 2011 aconteceu um fato histórico em Brasília. Simultaneamente trinta mil pessoas realizavam a “Marcha Contra a Corrupção”. Inspirados na Primavera Árabe que convocou o povo pela internet e derrubou ditadores há décadas no poder, pela primeira vez os brasileiros reuniam-se numa convocação feita através do Facebook. No dia 12 de outubro haverá outra. Sobre esta nova modalidade de convocação discutiremos em outra ocasião. Neste momento quero questionar “contra qual corrupção estamos marchando?”
A corrupção que permite dirigir bêbado e atropelar e matar um inocente? Ou aceitarmos uma escola aos frangalhos ao lado de uma linda agência do Banco do Brasil? Um aeroporto impecável na mesma cidade de um hospital sem a menor condição de atender os doentes? Não seriam corruptos os ministros do Supremo Tribunal Federal que não julgam os políticos enrolados com a Justiça? Não seríamos corruptos ao aceitarmos uma criança fora da escola pedindo esmolas pelas ruas enquanto o país gastará cerca de dois bilhões com a Copa do Mundo para vermos os jogos pela televisão? Ou a marcha foi contra a corrupção dos políticos desonestos?
Pelas entrevistas dos organizadores pareceu-me ser contra esses políticos. Não acredito muito nessas manifestações sem nome, tais como “Vamos salvar o planeta” ou “Vamos salvar a floresta amazônica”, sem considerar as peculiaridades daquela região. No caso da marcha dos corruptos ideal seria nominá-los e fazer a manifestação contra cada um individualmente. Mensalmente eleger-se-iam alguns corruptos. A manifestação teria rostos e nomes. Seria mais impactante do que “Todos contra a corrupção”.
Além de nominar os políticos corruptos, outra sugestão seria uma manifestação com os nomes dos ministros relatores dos processos dos corruptos. A impunidade é um dos fatores que mais contribuem para a corrupção. Se as manifestações começarem a constranger os ministros do STF, acredito que os processos sairão das gavetas.
Enquanto estivermos marchando contra a corrupção generalizada o efeito virá, mas levará muito tempo. Político não teme manifestações generalizadas. Ele treme se vir seu nome estampado no país inteiro. Treme ele e todos os outros.
Cada manifestação teria três nomes e um calendário anual dos próximos nomes. O que mais incomoda o político corrupto é ver suas estripulias na boca do povo. Não tem tamanho o sofrimento do corrupto se em janeiro souber que em novembro seu nome será estampado nos jornais e televisão do Brasil inteiro. É sofrimento o ano todo.
Político não teme o Poder Judiciário, teme o poder das ruas. É do povo que depende o emprego e o poder dele.
Os organizadores da Marcha Contra a Corrupção lamentaram da participação de apenas trinta mil pessoas enquanto quase três milhões de homossexuais caminharam pelas suas de São Paulo defendendo seus direitos. Na manifestação em Brasília nem nossos políticos honestos compareceram.
Por que a passeata gay foi bem sucedida? Porque gay tem nome e eles mesmos foram às ruas. Por que a manifestação contra os corruptos foi um ‘fracasso’? Porque não foram dados nomes aos corruptos e também porque eles não compareceram.
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