terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Não há silêncio que não termine

Acabei de ler um livro maravilhoso e gostaria de compartilhar esta experiência com vocês. Chama-se “Não há silêncio que não termine”, de autoria da ex-deputada e ex-senadora colombiana, Ingrid Bettancourt. Nesse livro ela relata seu seqüestro e cativeiro na selva amazônica nos quase sete anos em que ficou prisioneira das FARCs (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia).
Numa narrativa dinâmica e real ela conta com riqueza de detalhes as tentativas de fugas, as humilhações impostas pelos guerrilheiros, as desavenças entre os próprios prisioneiros que buscavam a simpatia dos seqüestradores em favor de alguns privilégios como não ser acorrentados, maior quantidade de comida, ficar mais tempo no banho etc.
Enquanto ela esteve prisioneira, aqui no Brasil tentamos fugir dos assaltos, nos submetemos às humilhações dos seqüestradores relâmpagos, acorrentamos nossa casa e nosso carro para não serem furtados e nos indignamos com os privilégios dos parlamentares em aumentar seus salários em mais de 60% de uma só vez.
Confesso que me apaixonei pela história desta mulher. As histórias de superação sempre nos emocionam, sobretudo se somos contemporâneos aos fatos e as acompanhamos.
Nas conversas da autora com os seqüestradores eles revelaram que tinham poucos anos de estudos e foram parar nas FARCs em busca de salários que são depositados nas contas de suas famílias. Esse dinheiro vem do narcotráfico. Deduzimos que não estão ali por ideologia. Buscam salários e melhores condições de vida.
Enquanto isso no Brasil, a polícia e as Forças Armadas invadiam o morro do Alemão no Rio de Janeiro.
Tal qual os farquianos, os traficantes do morro do Alemão, e dos Alemães Brasil afora, são todos carentes de educação e trabalho.
Num pequeno exercício podemos inferir que os usuários de droga brasileiros - ricos ou pobres, famosos ou anônimos, são financiadores direto das FARCs e ajudam confinar homens e mulheres nos cativeiros na selva amazônica ou nas cidades brasileiras.
Não tem plena liberdade quem mora num condomínio fechado para se proteger dos ladrões, coloca películas escuras no carro para despistar os assaltantes nem quem espreita as circunstâncias do estacionamento antes de parar ou entrar em seu carro. Os bandidos brasileiros mantêm-nos num cativeiro onde temos a falsa sensação de sermos donos dos nossos passos e da nossa vontade.
Num grau moderado de prisão, mas com o mesmo grau de medo e insegurança que os seqüestrados pelas FARCs, podemos afirmar que somos todos reféns. Estima-se que as FARCs tem 200 pessoas em seu poder. Nossos bandidos e traficantes tem 190 milhões.
“Não há silêncio que não termine” é uma lição de vida. Mostra-nos o valor das pequenas coisas que não valorizamos quando estamos no conforto de nossa família ou na companhia dos amigos. Várias passagens do livro me emocionaram. Uma especialmente quando, num dos raros momentos de diversão oferecidos pelas FARCs, Ingrid Betancourt recebe um DVD do filme “Como água para chocolate”. Ela relata que anos antes sua mãe a convidou para irem ao cinema ver esse filme, mas ela (Ingrid) recusou o convite para atender compromissos políticos. Lá no cativeiro ela sofreu bastante ao se lembrar deste fato e prometeu que se saísse com vida cozinharia mais vezes para os amigos e não recusaria os convites das pessoas queridas.
Depois de ler o livro procurei mais informações sobre a autora. Achei na internet uma entrevista dela no Programa do JÔ, no dia 03/11/2010, para lançamento do livro. Nessa entrevista ela cita os nomes de alguns companheiros que ainda estão no cativeiro. Afirma que fala os nomes deles porque acredita nos poderes da palavra. Ao mencioná-los, tem certeza que sua voz chegará até eles e os confortará.*
A ex-senadora Ingrid Betancourt foi libertada numa ação cinematográfica e pôde escrever o livro. Quanto a nós, quando seremos verdadeiramente libertados e poderemos dizer? “Não há silêncio que não termine”.


*Entrevista com Jô Soares  (http://www.youtube.com/watch?v=JbnRn0IYbsw)

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

20101126 Pingüim cagão no Estreito de Magalhães, Chile.
20101125 Contraste de cores na Antarctica. Foto feita com filtro polarizador por causa da grande intensidade de luz solar.

O submundo dos corruptos

Nos poucos dias em que esteve preso, JP disse que não sentiu angústia da confinação nem vontade de ir embora, porque fora respeitado e bem tratado pelos policiais. Tirou aqueles dias para repensar a vida e seus atos. Prometeu cuidar mais das pessoas queridas, atender menos o celular, brigar menos no trânsito, enfim, ser um velhinho boa praça.
Na prisão, sua imaginação voou mais do que quando em liberdade. Certo dia, veio uma barata da cela vizinha e se instalou na cela dele. Sem ter para onde olhar, ficou admirando o bicho decorando a parede. Era uma barata pequena, inocente e jeitão simpático. Ainda assim, pensou em matá-la. Afinal, barata não é bicho para se admirar é para matar, mas não a matou. Ficou olhando-a e imaginando quanto poder ele tinha nas mãos, digo, na chinela, naquele momento. A vida daquela barata dependia da decisão dele.
JP chamou o carcereiro e perguntou quem estava na cela à esquerda, de onde viera a barata. Ele respondeu que estava ocupada por um acusado de crime ambiental, que pagou alta multa e pegou tantos anos de cadeia que hoje não mata sequer uma barata.
Pouco tempo depois a barata deixou a cela e foi para a da direita. Por vários dias em vão JP esperou ela voltar. Novamente chamou o carcereiro, relembrou-o da barata e perguntou quem estaria naquela cela. Ele respondeu que se tratava de um criminoso cruel que não suportava vida que não fosse a dele própria. Matava tudo que encontrava pela frente.
Aquela barata era o único ser vivente que, apesar de estar num presídio, poderia sair a hora que quisesse para o esgoto que bem entendesse. Como os demais presos, escolheu a prisão por livre e espontânea vontade. Escolheu errado e foi assassinada dentro de uma cela.
As cadeias são assim mesmo. Lugar de poucos. Poucos móveis, pouca limpeza e e pouca gente rica. Por falar em limpeza, é comum na literatura as cadeias serem cenários para ratos, baratas, percevejos e outros bichos. Com JP não foi diferente. Na sua cela apareceram baratas e ratos. Freqüentadores assíduos do submundo dos dejetos dos seres humanos. Atuam sorrateiramente na escuridão e, quando vistos em ação, são logo repelidos pelas pessoas de mãos limpas. Se esses bichos obedecessem nossas regras ficariam no nosso mundo, não se esgueirariam pelos bueiros e esgotos. Agiriam na claridade da luz. Não fugiriam quando vistos em ação. Seriam aplaudidos e até ajudados nas tarefas, alimentados como fazemos com outros animais. Mas eles preferem agir na escuridão, na certeza de que nunca serão descobertos, desmascarados e punidos.
Os homens públicos que decidem viver nos esgotos, longe da ética, jogando o bem comum na latrina, agem em proveito da imagem bela e limpa de si mesmos. Não há tamanho para o seu ego nem água que limpe a sujeira de suas atitudes. Julgando-se acima do bem, e de todos os mortais, autointitulam-se gênios da espertise e da sabedoria. Imaginam nunca dantes ninguém ousara tanto. Enganam-se. Apenas repetem os atos infortúnios de outros desventurados e os mesmos caminhos da desilusão, do abandono e da repulsa coletiva.
Muitos gênios da política, do esporte, das artes, das letras sucumbiram ao julgar que seriam gênios também nas falcatruas. Assassinaram, roubaram, furtaram, mentiram para seus admiradores. Julgando-se gênios em enganar, enganaram-se.
O político só é genial se unir a coletividade em torno de uma idéia brilhante. O esportista, quando vence os adversários, aplicando-lhes golpes limpos dentro das regras. O artista, quando enche de cor uma tela branca sem graça, ou quando dá vida ao ferro, à madeira ou à pedra. O escritor, quando cria personagens capazes de passarem-se por humanos e ultrapassar gerações. Querer ser mais gênio do que sua capacidade é cair no ridículo, enganar a si próprio e a Deus.
O caminho mais fácil de o homem chegar ao inferno é enganar a Deus. É querer tomar o lugar Dele. Deus não é gênio e não existe gênio que seja Deus. Ao menos nunca ouvi ninguém afirmar que Deus é gênio.
O gênio não age sorrateiramente, “latrinamente”, “esgotamente”. Sai à luz do dia para ser visto e admirado por todos. Ficar no subsolo e pensar que seu Deus não o está vendo é diminuir as idéias que poderiam ser reconhecidas como geniais.
O filho só é genial quando obedece as regras familiares. Caso contrário, é desterrado e humilhado perante os familiares e vizinhos. O político só é genial quando obedece às regras. Fora delas ele não é respeitado, não é reeleito, não governa. Ser artista genial é fugir às regras, ao contrário do político. Talvez seja esta a razão de chamarmos ‘artista’ ao político travesso. O que elege um político não são as travessuras, são a obediência e respeito às regras. O artista faz suas regras. Político não faz regras, obedece às ditadas pelos eleitores.
Nas suas tramas de enriquecimento com o menor esforço, o corrupto sabe que não se construirá um pedestal em sua homenagem nem haverá uma estátua do “corrupto desconhecido”. Apesar dessa certeza, ele, em meio aos ratos, seus admiradores, trama ser o melhor e mais esperto (eis a palavra certa, esperto) que os outros ratos e as pessoas que habitam a superfície. Nesta teia, todos são cúmplices e todos “roedores” que rodeiam o rato-mor, vangloriam-se de conhecê-lo e ter sua simpatia. Simpatia, sim. Respeito, não. Os corruptos não se respeitam entre si, não se gostam nem se admiram. Toleram-se em favor de um agrado ou benesse de pouca monta.
Esse relacionamento superficial ficou-me claro nesses quase trinta anos de serviço público. Inúmeras vezes vi colegas visitarem o inferno quando aceitaram o convite para sair da superfície e freqüentar o subterrâneo das baratas e ratos. Quando desmascarados, perderam o emprego, os amigos (a mim inclusive), passaram a vagar sozinhos pelos corredores e a sentarem-se sozinhos no restaurante da empresa até o dia do juízo final. Demissão a bem do serviço público.
Dois dias após a passagem da barata, JP estava deitado pensando na vida, quando apareceu um rato grande, gordo, cinzento com pelo bem lizinho. Ele veio na maior correria e entrou no bolso da calça. JP não se assustou e afastou-o com delicadeza. Novamente ele tinha uma vida nas mãos cuja continuação dependia da sua decisão.
O rato saiu do bolso e correu direto para uma cueca suja que estava jogada num canto. Quando viu que ele iria se agasalhar, JP foi lá e sacudiu-a. O rato caiu e correu direto para dentro da meia que estava no outro canto da cela. JP deixou-o ficar por uns instantes e depois o espantou para fora da cela. Ele correu para cela do final do corredor, iluminada por uma luz branca constantemente acessa e que nunca se apagava. No mesmo instante, o rato voltou na maior carreira para a cela da frente, de onde saíra.
Outra vez JP chamou o carcereiro. Falou do rato e perguntou quem ocupava a cela em frente a sua. Ele respondeu que era um político famoso que estava preso porque desviara muito dinheiro que seria para pagar professores, médicos e agricultores. Perguntado sobre quem ocupava a cela iluminada, o carcereiro respondeu que era a Justiça, que nunca fica no escuro. Vê tudo o que acontece e não suporta os que escondem dinheiro nos bolsos, cuecas e meias. Explicou ainda que as baratas e os ratos só agem no escuro e quando encontram o clarão justiceiro fogem que nem desesperados políticos ladrões.




Texto elaborado em 19/07/2010

20101130 Lagarta de fogo no meu jardim.
20101128 Pássaro no pátio do aeroporto de Punta Arenas, no Chile.
20101126 Dog Street ou Vira Lata em Punta Arenas, no Chile. Não é o mesmo cachorro da foto ao lado.
20101126 Dog Street ou Vira Lata em Punta Arenas, no Chile.