terça-feira, 29 de novembro de 2011

O rato e o político

Certo dia, a Suzana foi visitar a horta comunitária do seu condomínio de luxo. Ela com mais duas madames caminham diariamente tentando reduzir a gordura adiposa na altura da cintura, das coxas, dos braços...
 Admiravam o cuidado das crianças com as hortaliças. Teorizavam sobre o valor daquele trabalho para a dignidade infantil e enchiam de elogios o síndico do condomínio.
Era fim de tarde, sol já indo descansar.
De tanto ouvir tanto mimo com a horta, um inocente ratinho saiu do buraco do muro. Ali era o seu território. Aquela horta também era dele. Dali alimentavam-se ele, seus pais e uma ninhada de irmãos ratinhos. Todos rechuchudinhos, marronzinhos e inofensivos.
- Inofensivos? – Foi o grito da Suzana ao ler esse parágrafo.
Movido pela curiosidade, o bichinho se aproximou, por detrás das madames, e ficou ouvindo atentamente os elogios. Ele também gostava do trabalho das crianças. Sentia enorme gratidão de elas plantarem hortaliças bem gostosas e nutritivas. Elogiava-as por elas terem plantado aquele banquete justamente na porta da sua casa.
Embevecido com os comentários e confiante na bondade das madames, o ratinho resolveu adiantar uns passinhos e se enroscou no pé da Suzana. Aí lascou. Ela deu um pulão tão alto, mas tão alto, que o ratinho nunca imaginou que bicho tão grande e tão pesado pudesse pular tão alto. O pulo veio acompanhado de um grito ensurdecedor que quase matou de susto o ratinho e todas as madames.
Formada a confusão, cada qual correu para um lado. O ratinho para o buraco. As madames esbaforidas, chegaram a suas casas e relataram o fato aos seus maridos. Exigiram providências urgentes para matar aqueles ratos, limpar o lugar, jogar veneno brabo.
Enquanto isso, o ratinho, com o coraçãozinho saindo pela boca, contava a sua mãe, que uma mulher feia, grande quase da altura do muro, deu-lhe um susto danado. Assustada e preocupada com a integridade da sua família, a mãe ratazana prometeu saírem daquele lugar imediatamente. Reclamou com o ratão pai que precisavam se mudar para um lugar seguro livre de pessoas esnobes. Como podem se sentirem ameaçadas com seu filhinho inocente, bonitinho e cheirosinho? Além do mais, aquelas nojentas vêm roubar suas hortaliças, o alimento da família.
Tentando convencer o marido, ela relembrou que dias eles haviam roído o jornal com a notícia sobre o político corrupto da rua de baixo. A notícia dizia que o tal político era um “verdadeiro rato nos ministérios”. Ontem, na calada da noite, os ratos presenciaram o tal político enterrar um saco de dinheiro no jardim.
- Marido, se mexe, vamos lá roer o dinheiro dele e mostrar quem é o rato aqui. Já estou enojada de tanto ver aquele ladrão sendo paparicado por todos do condomínio, enquanto nós, que não roubamos nada deles somos constantemente ameaçados.
Abraçou o filhinho e pediu para ele nunca mais sair sozinho.
Após os gritos, pulos e a correria, as plantas sentiram-se aliviadas por ver todos aqueles devoradores herbívoros longe da horta.
- Ufa, teremos mais um dia de vida! - Suspirou uma couve-flor desabrochando-se e se enroscando num robusto pepino em riste.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Neblina e Bomtempo


Hoje quero homenagear alguns amigos de nomes “diferentes”.

Ontem, chegando ao meu trabalho, encontrei a Neblina com mais dois colegas. Ela falava de um artigo homenageando seu nome, escrito pela jornalista Conceição Tavares e publicado no jornal Correio Braziliense. Sempre bem humorada, Neblina contou que ouve muitos gracejos com seu nome, tais como: “Neblina, foi você quem causou aquele engarrafamento na estrada?” ou “Neblina, deixa o sol entrar” etc.

Saindo dali encontrei uma amiga das antigas, cujo nome não conheço ninguém mais. Trabalhávamos nas repartições do Governo do Distrito Federal e há mais de vinte anos não a encontrava. Mesmo depois tantos de anos não esqueci o nome dela: Ormezinda. Como estávamos no meio dos afazeres, falamos rapidamente e lembramos de alguns colegas daquela época. Despedimo-nos desejando boa sorte. Gostei do reencontro.


Meu pai era porteiro do bloco G da SQS 115, em Brasília. Ali morava o Coronel Emílio, a quem muito honramos. Graças ao Coronel, papai - após anos esperando na fila, conseguiu uma casa da SHIS na Ceilândia. Naquela época eu tinha 15 anos e era o caseiro do apartamento 606, onde moravam a D. Léa e o Capitão Raul. Eu cuidava da Mascal. Cadela carinhosa e dengosa. Naquele prédio fiz amizade com os Boamorte. Eu e os dois filhos adolescentes daquela família descobrimos, de bicicleta Monareta, as primeiras curvas dos viadutos no final do eixão sul. Nunca esqueço da bronca carinhosa que levamos da mamãe deles por termos ido a lugar tão perigoso com máquinas revirando montanhas de terra vermelha. A diferença econômica e cultural em nada influenciou a amizade dos Boamorte comigo... A inocência não distingue.

Outro nome que não me sai da cabeça é a Serena. Vi-a somente uma vez, a trabalho. Ela é do Corpo Diplomático de um país caribenho. Negra linda, longilínea, educada e muito inteligente.

Na Universidade de Brasília conheci o Feliz. Ele dizia que gostava de guardar a imagem da pessoa em vida, conversando, sorrindo. Por isso não olhava defunto no caixão. Gostei tanto dessa idéia que desde então velo meus mortos a distância. Não olhei nem meu pai.

Hoje o sol não apareceu. O tempo está chuvoso e frio. Essa neblina fez-me lembrar das irmãs Bomtempo, outro nome muito querido no Centro de Ensino 02 de Samambaia, onde lecionávamos. Com essa lembrança veio uma saudade danada. Vou já telefonar para elas e matar a danada.



quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Deus é mais

Marcelo Yuka é o baterista do conjunto Rappa. Aos 34 anos de idade ele foi atingido por nove tiros quando tentou proteger uma pessoa que estava sendo assaltada no Rio de Janeiro. Um dos disparos atingiu sua coluna e o condenou à cadeira de rodas.
 Numa entrevista ao Programa Conexão Roberto D’Ávila, Marcelo disse que quando estava saindo do coma, e tomando consciência de sua nova condição de cadeirante, sentiu enorme necessidade de “sentir vida” ao seu redor.
Deitado no leito do hospital, o sinal de vida mais próximo era a médica ao seu lado. Em busca de vida ele pegou a mão dela e acariciou. Num gesto brusco a médica tirou a mão, e em tom seco e decisivo, disse: - Sou paga para te ajudar, não ter pena de ti.
Num certo fim de tarde eu e Suzana fomos visitar sua mãe que havia sido internada na manhã daquele dia no hospital Anchieta. Frágil pela idade, mas sem doença grave aparente, esperávamos encontrá-la de alta, pronta para ir pra casa. Infelizmente, um médico trouxe-nos a fatídica notícia que a mãe dela tinha ido a óbito.
Assustada e deixando rolar as primeiras lágrimas, Suzana exclamou: - Não acredito!
Aos berros, num estado de total descontrole o médico a fuzilou com:
- Está me achando com cara de mentiroso? Você acha que estou brincando? Que necessidade tenho eu de mentir?...
Mesmo tendo que administrar a perda da mãe, ela percebeu o descontrole do médico, engoliu o destempero dele e chorou em silêncio, sem uma palavra de conforto do médico nem o direito de saber detalhes dos últimos suspiros da mãe.
Conheço um médico que gabava-se em dizer que às vezes não atendia certas pessoas ou porque estava jogando paciência no computador ou porque estava acompanhando suas ações na bolsa de valores ou simplesmente estava de “pá virada”, como ele mesmo dizia. Ele falava isso de maneira jocosa e não mostrava nenhum arrependimento, ou coisa que o valha, pelo fato de não ter aliviado o sofrimento de alguém. Esse colega é funcionário público bem relacionado, portanto, corria pouco risco de receber uma punição severa.
A vida dele transformou-se quando soube que seu filho, um jovem de 20 anos, universitário, estava com uma doença grave e restavam-lhe poucos dias de vida. Como pai desesperado, gastou todo o dinheiro que tinha na bolsa para curar o filho. Como médico bem relacionado, pediu ajuda aos melhores médicos. Não adiantou. Poucos meses depois o rapaz faleceu. Acho que esse meu conhecido entendeu o cascudo de Deus e nunca mais o vi comentar que desprezara seus pacientes.
Quando dizemos que somos “filhos de Deus”, significa que alguém mais sábio corrigirá nossas atitudes prejudiciais a nós e aos outros.
Não desejo nenhum revés severo na vida da médica do Marcelo Yuka, nem com o médico que berrou com a Suzana. Espero que eles entendam que são grandes, mas Deus é mais.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Marcha contra a corrupção

Na passeata do dia 7 de setembro de 2011 aconteceu um fato histórico em Brasília. Simultaneamente trinta mil pessoas realizavam a “Marcha Contra a Corrupção”. Inspirados na Primavera Árabe que convocou o povo pela internet e derrubou ditadores há décadas no poder, pela primeira vez os brasileiros reuniam-se numa convocação feita através do Facebook. No dia 12 de outubro haverá outra. Sobre esta nova modalidade de convocação discutiremos em outra ocasião. Neste momento quero questionar “contra qual corrupção estamos marchando?”

A corrupção que permite dirigir bêbado e atropelar e matar um inocente? Ou aceitarmos uma escola aos frangalhos ao lado de uma linda agência do Banco do Brasil? Um aeroporto impecável na mesma cidade de um hospital sem a menor condição de atender os doentes? Não seriam corruptos os ministros do Supremo Tribunal Federal que não julgam os políticos enrolados com a Justiça? Não seríamos corruptos ao aceitarmos uma criança fora da escola pedindo esmolas pelas ruas enquanto o país gastará cerca de dois bilhões com a Copa do Mundo para vermos os jogos pela televisão? Ou a marcha foi contra a corrupção dos políticos desonestos?

Pelas entrevistas dos organizadores pareceu-me ser contra esses políticos. Não acredito muito nessas manifestações sem nome, tais como “Vamos salvar o planeta” ou “Vamos salvar a floresta amazônica”, sem considerar as peculiaridades daquela região. No caso da marcha dos corruptos ideal seria nominá-los e fazer a manifestação contra cada um individualmente. Mensalmente eleger-se-iam alguns corruptos. A manifestação teria rostos e nomes. Seria mais impactante do que “Todos contra a corrupção”.

Além de nominar os políticos corruptos, outra sugestão seria uma manifestação com os nomes dos ministros relatores dos processos dos corruptos. A impunidade é um dos fatores que mais contribuem para a corrupção. Se as manifestações começarem a constranger os ministros do STF, acredito que os processos sairão das gavetas.

Enquanto estivermos marchando contra a corrupção generalizada o efeito virá, mas levará muito tempo. Político não teme manifestações generalizadas. Ele treme se vir seu nome estampado no país inteiro. Treme ele e todos os outros.

Cada manifestação teria três nomes e um calendário anual dos próximos nomes. O que mais incomoda o político corrupto é ver suas estripulias na boca do povo. Não tem tamanho o sofrimento do corrupto se em janeiro souber que em novembro seu nome será estampado nos jornais e televisão do Brasil inteiro. É sofrimento o ano todo.

Político não teme o Poder Judiciário, teme o poder das ruas. É do povo que depende o emprego e o poder dele.

Os organizadores da Marcha Contra a Corrupção lamentaram da participação de apenas trinta mil pessoas enquanto quase três milhões de homossexuais caminharam pelas suas de São Paulo defendendo seus direitos. Na manifestação em Brasília nem nossos políticos honestos compareceram.


Por que a passeata gay foi bem sucedida? Porque gay tem nome e eles mesmos foram às ruas. Por que a manifestação contra os corruptos foi um ‘fracasso’? Porque não foram dados nomes aos corruptos e também porque eles não compareceram.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Sozinho

Caras leitoras e leitores, quero compartilhar com vocês uma experiência por que passei e pensava que seria o fim do mundo. Passei quinze dias de férias em casa.
Eu que sempre procurei ficar longe de casa nas férias, desta vez tive que aceitar a decisão da família. Foi uma decisão que no início perturbou-me severamente. Sem saída, tratei de me adaptar a situação. A capacidade de adaptação e o sorriso são o que tem garantido a sobrevivência do ser humano.
Lá pelo terceiro dia vi-me sozinho sem colegas e parentalha. Cada integrante da casa estava ocupado com seus afazeres. Trabalho, estudos, namorados, amigos e não tinha espaço para mim no mundo da família. Eu fui ficando cada vez mais comigo mesmo. Bom sinal. Significa que os filhos estão tomando rumo próprio.
Foi então que decidi também aceitar-me porque senão eu seria um chato clamando por companhia. A primeira coisa em que pensei foi assistir Sessão da Tarde, da Rede Globo. Eu sempre desejei depois do almoço, deitar no sofá e assistir descompromissadamente (que palavrão!) aqueles filminhos doces e ingênuos. Desisti no primeiro. É muito açúcar para meu paladar. Então fui às Lojas Americanas e comprei uns filmes que sempre ouvira falar mas não os tinha visto. Neste caso o desafio seria assisti sozinho a um filme no DVD. Pois suportei o impossível. Assisti e recomendo: Casablanca, com Humphrey Bogart, Ingrid Bergman e Paul Henre; Carne Trêmula, de Almodóvar; Amor Sem Fronteiras, com Angelina Jolie e Clive Owen; Daniel Boone; Caminhos Ásperos, com John Wayne; O Livro de Cabeceiras, com Vivian Wu, Ken Ogata e Ewan McGregor.
Aprendi a fazer Sudoku – uma delícia! Li os livros O Idiota, de Dostoievski e A Fotografia – as formas, os objetos e o homem, de Antonio Arcari.
Desliguei meu celular (experiência que farei com mais frequência), fiz caminhadas no parque da cidade, cumprimentei todos os colegas que faziam aniversário no facebook e contemplei o pôr-do-sol em plena quarta-feira no Cruzeiro perto do monumento a JK.
A grande lição que tirei é que estamos cada vez mais sozinhos. Quando criança, estamos rodeados por mãe, tias, avós. Adolescentes, pelos amigos. Aos 20 anos, cercam-nos os colegas do trabalho, da faculdade. Como beiro os 50, todas essas pessoas estão ocupadas, algumas já falecidas. Restam os filhos com suas famílias nos fins de semana, alguns amigos mais próximos que ligam vez ou outra... E só.
Voltei das férias de alma mais leve com esses filmes e estou mais sociável internetemente. Como essa mudança de hábito trouxe-me enorme prazer, tranquei-me no quarto e a escrevi... Sozinho.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Bem feito para os Conselheiros Tutelares

Hoje o programa Globo Comunidade, da Rede Globo de Televisão, exibiu um programa sobre os problemas enfrentados pelos conselheiros do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente – CONANDA do Distrito Federal. Tristes e desencantados queixavam-se da falta de cadeiras, privacidade para ouvir uma criança, não tinham água para beber nem banheiros para usarem. Pesquisei na internet e encontrei que em vários Estados os conselheiros estão com salários atrasados, defasados e em alguns casos o 13º salário está seis meses atrasado. Cada cidade paga um salário diferente a partir de um salário mínimo.

Trago este assunto porque durante o programa da TV Globo veio-me a lembrança de um projeto que o senador Cristovam Buarque apresentou no Congresso Nacional criando a Agência Nacional de Proteção à Criança e ao Adolescente – Projeto de Lei do Senado, nº 50/2005.

Presenciei algumas reuniões com Conselheiros Tutelares de todo o país quando buscávamos o apoio deles para a aprovação do projeto. Eles rejeitavam totalmente o projeto. Tínhamos que quebrar a resistência dos conselheiros que não aceitavam a mudança de rumo do Conselho Tutelar para transformá-lo em uma Agência Nacional nos moldes da Agência Nacional de Telecomunicações - ANATEL, Agência Nacional de Energia Elétrica - ANEEL, Agência Nacional do Petróleo - ANP ou Agência Nacional de Aviação Civil – ANAC.

Eis alguns argumentos do senador Cristovam para convencer os conselheiros:
1. Quando os aviões simplesmente atrasam imediatamente o Presidente da República (à época era o Lula) aciona o Presidente da ANAC para resolver o problema;

2. Quando um avião some do radar, imediatamente são acionados aeronáutica, marinha e exército para encontrar e resgatar os sobreviventes. É assim que tem ser. Não pode ser diferente porque trata-se de vidas humanas. E quando uma criança desaparece... Ela é menos humana? Por que a Polícia Federal ou as Forças Armadas não são acionadas para encontrá-la?;

3. O Presidente do Conselho Tutelar não tem linha direta com o Presidente da República. Se alguma criança é atropelada raptada ou abusada sexualmente, os conselheiros não tem o poder de pedir ajuda ao Presidente da República nem colocar a força militar em busca da criança e tranqüilizar a família;

4. Com a Agência da Criança, a criança passaria ser uma responsabilidade federal. Atualmente a responsabilidade é dos governadores e prefeitos... Alguns deles não gostam de crianças... Criança não vota. Por isso a maioria de nossos governantes não se preocupa se elas estão em casa, no colégio, cheirando cola ou pedindo esmolas nos semáforos;

5. As agências do Banco do Brasil são iguais em todo o território nacional e seus funcionários recebem o mesmo salário, trabalhem no sul ou no norte. A intenção do projeto era transformar o CONANDA em Agência para poder exigir o mesmo tratamento.

Ao fim de cada encontro saíamos com a sensação de que os conselheiros estavam agarrados ao poder, às viagens que faziam sem prestar contas, ao medo de ter prestar concurso público para ingressar no novo órgão ainda que por um salário maior. Diziam que o sistema atual de proteção é ideal e suficiente. Parecia até que não estavam preocupados com as crianças. Tinham medo de possíveis cobranças. Alguém já ouviu o Presidente do CONANDA explicando porque uma criança está perambulando faminta ou cheirando cola pelas ruas? Se a Agência fosse criada teríamos a quem cobrar tal qual cobramos quando um raio atinge uma torre de energia elétrica ou quando os sinais dos telefones não funcionam adequadamente.

Procurei o endereço do CONANDA na internet e não achei. Achei o da ANAC, ANATEL, ANEEL...


Após três dias do desaparecimento de uma criança é que pode-se registrar queixa na delegacia para daí começarem as buscas. Vocês já viram quando um avião atrasa? Imediatamente a televisão, a Infraero e a ANAC dão o alarme.

Não é de fácil solução abrigar todas as crianças largadas nas ruas, impedir o trabalho infantil, pedofilia e outras crueldades. Podemos abrir discussão. Mas uma coisa não se discute: os jovens desassistidos são a maioria nos presídios. Estão nos obrigando a morar em condomínios fechados, blindar nossos carros, roubam nossos tênis, celulares e nossa paz.

No dia 1º de junho o projeto da Agência foi arquivado na Câmara dos Deputados. O relator foi o deputado Júlio César de Carvalho Lima, “professor, advogado e produtor rural”. A alegação dele é que o projeto tinha “inadequação e incompatibilidade orçamentária e financeira”.

O Brasil está entusiasmado e envolvido nas preparações para a copa do mundo de futebol em 2014 e com as olimpíadas em 2016. Não ouvi nenhuma autoridade alegar que esses eventos tenham “inadequação e incompatibilidade orçamentária e financeira”. Desejo que o Brasil dê show de bola nos gramados e na organização.

Aguerridamente os Conselheiros Tutelares tristes e desencantados deram show de união e derrubaram um projeto redondo, bem feito para eles.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Até o Tiririca

Hoje cansei-me de ouvir tantas críticas ao comediante analfabeto e agora Deputado Federal Francisco Everardo Oliveira Silva, o Tiririca.
Desde sua eleição ele tem sido o assunto principal no Congresso Nacional, nas televisões e rádios. Até mesmo alguns parlamentares não aceitam sua presença no Congresso. Não os incomoda o fato de Tiririca ser comediante de sucesso e agora político. O que pesa contra ele é ter vencido uma eleição sem saber ler e escrever.
De tempos em tempos aparece uma lei mexendo no direito de o analfabeto votar. A Lei Saraiva (1881) o impedia de se eleger e votar. Atualmente ele continua impedido de se eleger, mas pode votar.
As leis brasileiras permitem ao Tiririca se casar, levar seus filhos à escola, cobram dele os impostos e permitem-no sentar no banco da mesma igreja dos políticos alfabetizados.
Advogados, empresários, jornalistas, médicos, metalúrgicos, professores e sindicalistas são alguns dos profissionais que formam o Congresso Nacional. Há tempos o Congresso não tinha um analfabeto. Lembro-me que o último foi um senador pedreiro de Rondônia.
Proibindo a eleição dos analfabetos, os políticos ricos e intelectualizados não querem dividir o poder com quem não teve a oportunidade de freqüentar a escola. Quem deveria ser impedido de se eleger seria o Governador ou Prefeito em cujo Estado ou cidade houvesse um analfabeto sequer. A punição ao Tiririca deveria ser aplicada aos prefeitos da sua infância.
Por que os críticos do Tiririca perturbam-se tanto se ele tem duas características inerentes a todos nós, analfabeto e palhaço? Somos analfabetos nos assuntos que não conhecemos. E quem não aprecia uma boa piada? O que fazem esses críticos quando o Tiririca entra em suas casas? Desligam a televisão ou deleitam-se com as piadas? Alguns dos que o criticam são vistos nos plenários dando largas gargalhadas quando ouvem uma piada.
Quando enumerei as profissões, esqueci uma: corrupto. Por que os críticos do Tiririca não se incomodam em cumprimentar fervorosamente e sentar ao lado de parlamentares corruptos? Lembremos que lá só tem um analfabeto...
Os paulistas que votaram no Tiririca também elegeram parlamentares corruptos conhecidos nacionalmente, vários deles integrantes do mensalão. Até agora o Tiririca provou o seu caráter, sua ética e não se envolveu em casos de corrupção. Seu único pecado é ser analfabeto. Por outro lado, o Congresso está cheio de parlamentares altamente alfabetizados mas com vários processos na Justiça por crimes de corrupção.
As críticas aumentaram quando o Tiririca foi indicado para integrar a Comissão de Educação. Quem mais entende de educação do que um palhaço de sucesso? O sucesso de um palhaço só acontece por causa da inteligência dele. Muita gente de diploma na mão não consegue ordenar as palavras, pausá-las para prender a atenção, concatenar as idéias, cadenciá-las e ainda ser aplaudido.
No meio comercial e político temos vários exemplos de empresários bem sucedidos e com baixa formação escolar - ainda assim não se justifica não freqüentar a escola. Apenas para citar três: finado Sr. Venâncio, em Brasília, Silvio Santos e Lula. Assim como existem analfabetos com inteligência superior, existem políticos com diploma superior que não conseguem desenvolver suas idéias e por isso não representam com sabedoria a inteligência dos seus eleitores.
Os políticos continuam rejeitando os analfabetos ao não tolerarem o Tiririca na tribuna. Rejeitando-o, rejeitam os 14 milhões de analfabetos brasileiros. Esses políticos permitem os analfabetos votar neles (políticos) mas não se juntar a eles.
Por ser o maior Estado, São Paulo é o que possui mais integrantes no Congresso Nacional e alguns poderiam ser muito bem enquadrados na Lei do Ficha Limpa. Isso mostra que São Paulo e o Congresso abraçam todo tipo de gente: advogados, corruptos, empresários, jornalistas, médicos, nordestinos... E até o Tiririca.