terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Não há silêncio que não termine

Acabei de ler um livro maravilhoso e gostaria de compartilhar esta experiência com vocês. Chama-se “Não há silêncio que não termine”, de autoria da ex-deputada e ex-senadora colombiana, Ingrid Bettancourt. Nesse livro ela relata seu seqüestro e cativeiro na selva amazônica nos quase sete anos em que ficou prisioneira das FARCs (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia).
Numa narrativa dinâmica e real ela conta com riqueza de detalhes as tentativas de fugas, as humilhações impostas pelos guerrilheiros, as desavenças entre os próprios prisioneiros que buscavam a simpatia dos seqüestradores em favor de alguns privilégios como não ser acorrentados, maior quantidade de comida, ficar mais tempo no banho etc.
Enquanto ela esteve prisioneira, aqui no Brasil tentamos fugir dos assaltos, nos submetemos às humilhações dos seqüestradores relâmpagos, acorrentamos nossa casa e nosso carro para não serem furtados e nos indignamos com os privilégios dos parlamentares em aumentar seus salários em mais de 60% de uma só vez.
Confesso que me apaixonei pela história desta mulher. As histórias de superação sempre nos emocionam, sobretudo se somos contemporâneos aos fatos e as acompanhamos.
Nas conversas da autora com os seqüestradores eles revelaram que tinham poucos anos de estudos e foram parar nas FARCs em busca de salários que são depositados nas contas de suas famílias. Esse dinheiro vem do narcotráfico. Deduzimos que não estão ali por ideologia. Buscam salários e melhores condições de vida.
Enquanto isso no Brasil, a polícia e as Forças Armadas invadiam o morro do Alemão no Rio de Janeiro.
Tal qual os farquianos, os traficantes do morro do Alemão, e dos Alemães Brasil afora, são todos carentes de educação e trabalho.
Num pequeno exercício podemos inferir que os usuários de droga brasileiros - ricos ou pobres, famosos ou anônimos, são financiadores direto das FARCs e ajudam confinar homens e mulheres nos cativeiros na selva amazônica ou nas cidades brasileiras.
Não tem plena liberdade quem mora num condomínio fechado para se proteger dos ladrões, coloca películas escuras no carro para despistar os assaltantes nem quem espreita as circunstâncias do estacionamento antes de parar ou entrar em seu carro. Os bandidos brasileiros mantêm-nos num cativeiro onde temos a falsa sensação de sermos donos dos nossos passos e da nossa vontade.
Num grau moderado de prisão, mas com o mesmo grau de medo e insegurança que os seqüestrados pelas FARCs, podemos afirmar que somos todos reféns. Estima-se que as FARCs tem 200 pessoas em seu poder. Nossos bandidos e traficantes tem 190 milhões.
“Não há silêncio que não termine” é uma lição de vida. Mostra-nos o valor das pequenas coisas que não valorizamos quando estamos no conforto de nossa família ou na companhia dos amigos. Várias passagens do livro me emocionaram. Uma especialmente quando, num dos raros momentos de diversão oferecidos pelas FARCs, Ingrid Betancourt recebe um DVD do filme “Como água para chocolate”. Ela relata que anos antes sua mãe a convidou para irem ao cinema ver esse filme, mas ela (Ingrid) recusou o convite para atender compromissos políticos. Lá no cativeiro ela sofreu bastante ao se lembrar deste fato e prometeu que se saísse com vida cozinharia mais vezes para os amigos e não recusaria os convites das pessoas queridas.
Depois de ler o livro procurei mais informações sobre a autora. Achei na internet uma entrevista dela no Programa do JÔ, no dia 03/11/2010, para lançamento do livro. Nessa entrevista ela cita os nomes de alguns companheiros que ainda estão no cativeiro. Afirma que fala os nomes deles porque acredita nos poderes da palavra. Ao mencioná-los, tem certeza que sua voz chegará até eles e os confortará.*
A ex-senadora Ingrid Betancourt foi libertada numa ação cinematográfica e pôde escrever o livro. Quanto a nós, quando seremos verdadeiramente libertados e poderemos dizer? “Não há silêncio que não termine”.


*Entrevista com Jô Soares  (http://www.youtube.com/watch?v=JbnRn0IYbsw)

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

20101126 Pingüim cagão no Estreito de Magalhães, Chile.
20101125 Contraste de cores na Antarctica. Foto feita com filtro polarizador por causa da grande intensidade de luz solar.

O submundo dos corruptos

Nos poucos dias em que esteve preso, JP disse que não sentiu angústia da confinação nem vontade de ir embora, porque fora respeitado e bem tratado pelos policiais. Tirou aqueles dias para repensar a vida e seus atos. Prometeu cuidar mais das pessoas queridas, atender menos o celular, brigar menos no trânsito, enfim, ser um velhinho boa praça.
Na prisão, sua imaginação voou mais do que quando em liberdade. Certo dia, veio uma barata da cela vizinha e se instalou na cela dele. Sem ter para onde olhar, ficou admirando o bicho decorando a parede. Era uma barata pequena, inocente e jeitão simpático. Ainda assim, pensou em matá-la. Afinal, barata não é bicho para se admirar é para matar, mas não a matou. Ficou olhando-a e imaginando quanto poder ele tinha nas mãos, digo, na chinela, naquele momento. A vida daquela barata dependia da decisão dele.
JP chamou o carcereiro e perguntou quem estava na cela à esquerda, de onde viera a barata. Ele respondeu que estava ocupada por um acusado de crime ambiental, que pagou alta multa e pegou tantos anos de cadeia que hoje não mata sequer uma barata.
Pouco tempo depois a barata deixou a cela e foi para a da direita. Por vários dias em vão JP esperou ela voltar. Novamente chamou o carcereiro, relembrou-o da barata e perguntou quem estaria naquela cela. Ele respondeu que se tratava de um criminoso cruel que não suportava vida que não fosse a dele própria. Matava tudo que encontrava pela frente.
Aquela barata era o único ser vivente que, apesar de estar num presídio, poderia sair a hora que quisesse para o esgoto que bem entendesse. Como os demais presos, escolheu a prisão por livre e espontânea vontade. Escolheu errado e foi assassinada dentro de uma cela.
As cadeias são assim mesmo. Lugar de poucos. Poucos móveis, pouca limpeza e e pouca gente rica. Por falar em limpeza, é comum na literatura as cadeias serem cenários para ratos, baratas, percevejos e outros bichos. Com JP não foi diferente. Na sua cela apareceram baratas e ratos. Freqüentadores assíduos do submundo dos dejetos dos seres humanos. Atuam sorrateiramente na escuridão e, quando vistos em ação, são logo repelidos pelas pessoas de mãos limpas. Se esses bichos obedecessem nossas regras ficariam no nosso mundo, não se esgueirariam pelos bueiros e esgotos. Agiriam na claridade da luz. Não fugiriam quando vistos em ação. Seriam aplaudidos e até ajudados nas tarefas, alimentados como fazemos com outros animais. Mas eles preferem agir na escuridão, na certeza de que nunca serão descobertos, desmascarados e punidos.
Os homens públicos que decidem viver nos esgotos, longe da ética, jogando o bem comum na latrina, agem em proveito da imagem bela e limpa de si mesmos. Não há tamanho para o seu ego nem água que limpe a sujeira de suas atitudes. Julgando-se acima do bem, e de todos os mortais, autointitulam-se gênios da espertise e da sabedoria. Imaginam nunca dantes ninguém ousara tanto. Enganam-se. Apenas repetem os atos infortúnios de outros desventurados e os mesmos caminhos da desilusão, do abandono e da repulsa coletiva.
Muitos gênios da política, do esporte, das artes, das letras sucumbiram ao julgar que seriam gênios também nas falcatruas. Assassinaram, roubaram, furtaram, mentiram para seus admiradores. Julgando-se gênios em enganar, enganaram-se.
O político só é genial se unir a coletividade em torno de uma idéia brilhante. O esportista, quando vence os adversários, aplicando-lhes golpes limpos dentro das regras. O artista, quando enche de cor uma tela branca sem graça, ou quando dá vida ao ferro, à madeira ou à pedra. O escritor, quando cria personagens capazes de passarem-se por humanos e ultrapassar gerações. Querer ser mais gênio do que sua capacidade é cair no ridículo, enganar a si próprio e a Deus.
O caminho mais fácil de o homem chegar ao inferno é enganar a Deus. É querer tomar o lugar Dele. Deus não é gênio e não existe gênio que seja Deus. Ao menos nunca ouvi ninguém afirmar que Deus é gênio.
O gênio não age sorrateiramente, “latrinamente”, “esgotamente”. Sai à luz do dia para ser visto e admirado por todos. Ficar no subsolo e pensar que seu Deus não o está vendo é diminuir as idéias que poderiam ser reconhecidas como geniais.
O filho só é genial quando obedece as regras familiares. Caso contrário, é desterrado e humilhado perante os familiares e vizinhos. O político só é genial quando obedece às regras. Fora delas ele não é respeitado, não é reeleito, não governa. Ser artista genial é fugir às regras, ao contrário do político. Talvez seja esta a razão de chamarmos ‘artista’ ao político travesso. O que elege um político não são as travessuras, são a obediência e respeito às regras. O artista faz suas regras. Político não faz regras, obedece às ditadas pelos eleitores.
Nas suas tramas de enriquecimento com o menor esforço, o corrupto sabe que não se construirá um pedestal em sua homenagem nem haverá uma estátua do “corrupto desconhecido”. Apesar dessa certeza, ele, em meio aos ratos, seus admiradores, trama ser o melhor e mais esperto (eis a palavra certa, esperto) que os outros ratos e as pessoas que habitam a superfície. Nesta teia, todos são cúmplices e todos “roedores” que rodeiam o rato-mor, vangloriam-se de conhecê-lo e ter sua simpatia. Simpatia, sim. Respeito, não. Os corruptos não se respeitam entre si, não se gostam nem se admiram. Toleram-se em favor de um agrado ou benesse de pouca monta.
Esse relacionamento superficial ficou-me claro nesses quase trinta anos de serviço público. Inúmeras vezes vi colegas visitarem o inferno quando aceitaram o convite para sair da superfície e freqüentar o subterrâneo das baratas e ratos. Quando desmascarados, perderam o emprego, os amigos (a mim inclusive), passaram a vagar sozinhos pelos corredores e a sentarem-se sozinhos no restaurante da empresa até o dia do juízo final. Demissão a bem do serviço público.
Dois dias após a passagem da barata, JP estava deitado pensando na vida, quando apareceu um rato grande, gordo, cinzento com pelo bem lizinho. Ele veio na maior correria e entrou no bolso da calça. JP não se assustou e afastou-o com delicadeza. Novamente ele tinha uma vida nas mãos cuja continuação dependia da sua decisão.
O rato saiu do bolso e correu direto para uma cueca suja que estava jogada num canto. Quando viu que ele iria se agasalhar, JP foi lá e sacudiu-a. O rato caiu e correu direto para dentro da meia que estava no outro canto da cela. JP deixou-o ficar por uns instantes e depois o espantou para fora da cela. Ele correu para cela do final do corredor, iluminada por uma luz branca constantemente acessa e que nunca se apagava. No mesmo instante, o rato voltou na maior carreira para a cela da frente, de onde saíra.
Outra vez JP chamou o carcereiro. Falou do rato e perguntou quem ocupava a cela em frente a sua. Ele respondeu que era um político famoso que estava preso porque desviara muito dinheiro que seria para pagar professores, médicos e agricultores. Perguntado sobre quem ocupava a cela iluminada, o carcereiro respondeu que era a Justiça, que nunca fica no escuro. Vê tudo o que acontece e não suporta os que escondem dinheiro nos bolsos, cuecas e meias. Explicou ainda que as baratas e os ratos só agem no escuro e quando encontram o clarão justiceiro fogem que nem desesperados políticos ladrões.




Texto elaborado em 19/07/2010

20101130 Lagarta de fogo no meu jardim.
20101128 Pássaro no pátio do aeroporto de Punta Arenas, no Chile.
20101126 Dog Street ou Vira Lata em Punta Arenas, no Chile. Não é o mesmo cachorro da foto ao lado.
20101126 Dog Street ou Vira Lata em Punta Arenas, no Chile.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

A tropa silenciou

Nesses últimos anos está dando gosto ir ao cinema ver filme brasileiro. Ontem assisti Tropa de Elite 2. Tirando as poucas cenas de violência exagerada, embora condizentes com a realidade, e com investimentos, o filme prova o amadurecimento e profissionalismo do nosso cinema. Na minha visão de mero espectador, acredito que a mudança de postura do nosso cinema aconteceu a partir do filme Olga, estrelado por Camila Morgado. Demorou para amadurecer, mas felizmente nosso cinema não se dedica mais às pornô chanchadas mostradas na minha adolescência.

Deixemos o cinema e vamos falar de Congresso Nacional. Aqui no Congresso existem várias Bancadas, também conhecidas como “Tropas”. Temos a Bancada (Tropa) da Saúde, da Bola, Rural e outras. A tropa mais conhecida, e temida, é a “Tropa de Choque”. Geralmente formada por parlamentares governistas, é acionada para proteger o Governo nas votações espinhosas ou quando algum membro do Governo cai em desgraça corrupcional. Ela aterroriza os adversários - por isso a alcunha de ‘Tropa’. Conta com a máquina do Estado para desmoralizar e intimidar os que querem punir o pupilo governista corrupto.

O filme Tropa de Elite 2 traz uma grande novidade para um filme comercial. Aborda o lado político dos problemas brasileiros, nesse caso, a violência urbana. Com bastante inteligência, o filme põe o dedo na ferida e mostra a fábrica da violência nas cidades. Revela os bastidores da política ao denunciar o cinismo de homens considerados “acima de qualquer suspeita” e o quanto eles ganham ou pagam para manterem-se no poder nem que para isso homens, mulheres e crianças paguem com a própria vida. O filme mostra que a violência é conseqüência de atitudes ou negligência de alguns engravatados encastelados no Congresso Nacional. Quão bom seria se o próximo Tropa de Elite tratasse a relação direta entre falta de educação de qualidade e aumento da criminalidade.

Para escrever esta crítica fiz uma ligeira pesquisa nas páginas do Congresso e confirmei o que suspeitava. Não achei nenhum pronunciamento de nenhum político sobre o filme. Eu esperava que esse comentário viesse em forma de protesto contra o filme, proferido por alguém “acima de qualquer suspeita”, mostrando ao diretor do filme, José Padilha, que o Congresso Nacional não tem culpa pela bala que atingiu aquele jovem que neste momento agoniza numa UTI Brasil afora. Por fim, esperava que esse político, admirado por todos, defendesse o Congresso Nacional e a política brasileira, fazendo valer o desejo dos seus patrões: os eleitores.

No filme, o Comandante da Tropa de Elite sai em defesa do seu Batalhão e cumpre com rigor e determinação as ordens do Chefe, o Governador. Até o momento em que fecho este artigo o filme já foi visto por mais de dois milhões de pessoas. Ora, um filme com abordagem política apreciado por tanta gente, em ano eleitoral e nenhum político se manifesta, deixa-me propenso a acreditar no filme, apesar de ser uma peça de ficção.

Esse filme está instigando diretamente os governantes passados, atuais e futuros, todos os funcionários públicos, independente do cargo, e ninguém, nem eu, manifesta-se publicamente. Ano de eleição e os políticos ignoram o frisson de mais de dois milhões de eleitores que já viram e comentam o filme.

Será que nenhum parlamentar governista viu este filme? Se se trata de um filme que caiu no gosto popular, por que nenhum dos candidatos não incluiu este assunto nos programas eleitorais? Se os governistas o viram, e o filme atinge os atuais governantes, por que a “Tropa” silenciou?

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Tecnologia desobediente

A bola usada nesta Copa do Mundo na África do Sul foi batizada de Jabulani, que na língua africana significa “celebrar” ou “trazendo alegria para todos”. Toda a tecnologia conhecida até o século XXI foi usada nessa bola. Com menos gomos ela ficou mais leve, ligeira e eficiente que as bolas até então conhecidas. Apesar da tecnologia empregada pela sua fabricante Adidas, às vezes a Jabulani não obedecia e parecia ter vontade própria e não trouxe “alegria para todos”. Algumas vezes enganou os goleiros, os jogadores e a nós torcedores. Atormentou nossas vidas. Ia retinha para entrar no gol. No meio do caminho cismava, desviava e tomava rumo próprio ignorando a vontade de quem a chutou e toda a tecnologia que recebera.
Outro exemplo de tecnologia desobediente é o da sonda Mars Global Surveyor lançada em 1997. Sua missão seria mandar fotos e informações de Marte, o que foi parcialmente cumprida não fosse seu desaparecimento em 2006. Nunca mais tivemos notícias dela. Como se tivesse vontade própria ela deixou de se comunicar com a Terra. Deve está escondidinha numa montanha marciana para não ser encontrada ou pegou carona num cometa e está rindo dos cientistas desesperados pedindo que ela fale com eles. Ela está lá indiferente aos super telescópios e montanhas de dinheiro gastos na missão.
Eu poderia continuar citando outros casos em que a tecnologia ditou as regras mas vou parar no caso dos mineiros no Chile.
Parte de uma mina desabou em Copiapó, cidade ao norte do Chile, e 33 mineiros estão a 700 metros de profundidade presos porque a saída foi totalmente tapada no desmoronamento. O povo chileno e o mundo se mobilizaram para ajudá-los. A NASA enviou comida de astronautas, equipes de médicos e psicólogos estão em contato constante com eles e acompanhando todos os seus movimentos. Acredito que daí sairá algum trabalho sobre comportamento humano em condições extremas. A salvação deles e as nossas esperanças estão numa máquina que está perfurando um buraco que chegará até eles. Só que a sonda demorará uns três meses para chegar ao poço e resgatá-los.
Desde que vi a primeira reportagem sobre esses homens sinto uma sufocação no peito ao imaginar-me na mesma condição. Daqui de fora o mundo está torcendo e trabalhando para que a tecnologia seja obediente e o resgate seja um sucesso.
Para esses três casos foi empregada a mais alta tecnologia. Uma coisa me intriga. Apesar de toda a tecnologia da Polícia Federal para combater a corrupção, apesar das leis anticorrupção aprovadas pelo Congresso Nacional, das penas aplicadas pelos Tribunais e da rejeição do povo à corrupção... Por que ainda assim existem políticos que conseguem nos enganar?

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Minha bola caiu d’m avião


Hoje, 1º de junho de 2010, o Senado Federal homenageou os empresários José Alencar, João Claudino Fernandes, Jorge Gerdau e José Mindlin pela contribuição de suas empresas ao desenvolvimento econômico e social do Brasil.

Na solenidade, durante os discursos, descobri que o Sr. João Claudino Fernandes é o dono do Armazém Paraíba, uma grande loja de departamento no Nordeste. Eu não o conhecia nem sabia que ele era o dono dessa loja. Quando soube meu coração ficou pulando de alegria e deu-me vontade de abraçá-lo e falar para ele o que contarei agora.

No final dos anos 60, o Armazém Paraíba chegou em Caxias, Maranhão, minha cidade natal. Naquela época eu tinha uns nove anos de idade. Lembro-me com saudades que a cada aniversário seu o Armazém Paraíba fazia uma grande festa na cidade. No Cine Rex, passavam-se filmes o dia todinho e gratuito para quem quisesse assistir. Cantores famosos faziam shows, que eram comentados em toda a cidade. O que mais me encantava era um avião que passava soltando bolas que caíam no meio da rua, nos quintais, dentro dos riachos ou no rio Itapecuru. Às vésperas do aniversário do Paraíba, eu e meus amigos Brito, Jorge, Dodô, Caga-Moedas e meu irmão Nonato ficávamos no campinho planejando como ir ao cinema, ao show e, principalmente, como pegar bolas do avião.

O Nonato, que é um pouco mais velho que eu, nunca falava em shows ou pegar bolas. O negócio dele era os filmes. No dia da festa ele me ajudava a vestir roupa limpa, pegava-me pela mão, levava e me protegia de ser pisoteado no Cine Rex. Foi graças a ele e ao Armazém Paraíba que conheci os filmes do Fantasma – O espírito que anda, Giuliano Gemma e outros que não me recordo os nomes. Se alguém se lembrar, diga-me o nome do filme em que um homem despenca rolando de uma escada, com uma xícara de café na mão, numa casa bem mobiliada e quando chega embaixo, no primeiro degrau, o café está todinho na xícara. Ele não deixou cair uma gota sequer. Participam da cena duas ou três freiras.

No dia dessa festa eram exibidos e repetidos dois filmes o dia todo. O cinema ficava lotado de crianças e adultos. Era gente em pé, sentada no chão ou do lado de fora tentando achar uma brecha para entrar.

A outra festa da meninada era quando o avião passava jogando bolas. Saíamos todos correndo no rastro delas e as pegavam aqueles que tivessem mais sebo nas canelas e fosse mais forte para empurrar a gente na horinha de botar a mão na gorduchinha.

À noitinha, reuníamo-nos no campinho em frente a minha casa para contar as aventuras daquele dia maravilhoso. Sofregamente, de uma só vez, todos queríamos falar as nossas experiências. Eu sempre falava dos filmes e que nunca conseguia pegar uma bola. Dentro de mim havia uma tristeza danada por não conseguir pegar uma bola para jogar com o Nonato. Sempre jogávamos com as bolas de meia que ele fazia.

Eu acompanhei essa farra por uns três anos antes de mudar para Brasília. No último aniversário que passei lá, fiquei a manhã inteira no cinema e voltei para casa para almoçar, contando com a boa vontade da minha mãe para me deixar voltar junto à molecada. Almocei e fui ao banheiro – lá nós chamamos de sentina¹ –, que ficava no fundo do quintal. Eu estava agachado e concentrado fazendo minhas necessidades quando ouvi o barulho de um avião e a gritaria da meninada. Era sinal que o avião estava soltando bolas. Foi nesse instante que ele sobrevoou meu quintal e ouvi um tum ao lado do banheiro. Sai com o calção nos calcanhares e pude ver uma linda bola quicando bem alto de alegria no meu quintal. Ela era bem redondinha e vermelha com o símbolo do Armazém Paraíba escrito em branco, e cheirosa. Quando meus irmãos mais novos viram que a bola tinha caído em nosso quintal correram ao meu encontro e corri à procura do meu calção e de água para me lavar.

Trinta e oito anos depois conheci o homem que me deu uma das maiores alegrias da minha infância. Já que não pude contar a ele essa história, conto a vocês, mas farei chegar até ele.

No momento em que finalizo este texto passou sobre minha casa um avião de barulho parecido com aquele. É de um morador ilustre que mora numa chácara não muito longe da minha casa. Ah se eu pudesse descrever o sentimento de ouvir o barulho desses aviões!

Sr. João Claudino, receba esta homenagem de um menino pobre cheio de sorte.



Obs.: Endereço do Armazém Paraíba na internet http://www.armazemparaiba.com.br/lojas_index.php

¹Sentina – buraco cavado no chão, coberto com umas tábuas com um furo no meio onde a pessoa fica agachada para fazer suas necessidades fisiológicas.




Carta ao goleiro Júlio César

Caro goleiro Júlio César!
Ao escrever esta carta, lembro-me da linha traiçoeira daquela bola Jabulani (“confratenização” na língua sulafricana) chutada pelo holandês Sneijder, que enganou você e o Felipe Melo, levando-os do céu ao inferno nesta Copa do Mundo de 2010.
Esse feito lembrou-me outro Júlio César, Imperador de Roma, assassinado numa conspiração política em 44 a.C. Agonizando nas escadarias do Senado, puxou a túnica ensangüentada e, ao ver o filho Brutus segurando o punhal, eternizou a famosa frase: “Até tú, Brutus?”
Júlio César, você não foi o único responsável pela derrota brasileira. Essa questão pode ser analisada de diversas formas técnicas: habilidades dos jogadores e funções chaves; visão estratégica; compromissos e até mesmo a luxúria e a vaidade que o cargo de técnico da seleção pode exercer em um mortal comum, assim como a indecisão de executar as mudanças necessárias na hora exata.
Você homem abençoado pelo universo, reescreveu sua história com glória e fama. Sorte conquistada e adquirida, tem a musa Suzana Werner que encantou-se, não apenas pelo ídolo, mas pelo homem de mãos talentosas, que a fez abdicar da carreira para constituir uma família ao lado desse homem emotivo e sentimental que não teve medo de mostrar as lágrimas após a derrota. O gol sofrido pela seleção canarinho foi um fato lastimável, “coisas do futebol”. Só erra quem está em movimento. Naquele dia a Jabulani derrotou-nos com um movimento inesperado.
As mãos que você usa para acarinhar a família e seduzir sua mulher, infelizmente falhou naquele momento, quando a bola firme e veloz insistiu em derrubar nossa certeza de que mais uma vez seríamos campeões mundiais... Quanta presunção!!!!
Não pense que só vibramos quando os jogadores fazem gols, contemplamos quando você faz uma defesa impossível para nós mortais comuns estirados no sofá.
Não vim só para elogiar, preciso desabafar. Como homem me senti abalado e serei franco, tal qual sou com todos da nossa espécie. Naquele dia fatídico você cometeu duas falhas. A primeira foi sair errado do gol e “tomado um frango”. Compreensivo para quem fica em um local tão ingrato. Quando a bola atrevida rompe o limite o goleiro é sempre o réu e ninguém lembra que embaixo da trave, eterno calvário de qualquer goleiro, é o único lugar no campo onde não nasce grama.
Outro ponto é que logo após o jogo, ainda no vestuário, com os olhos marejados, numa tentativa de consolar o povo brasileiro que estava em lágrimas, você disse: “foi apenas um jogo”. O Galvão Bueno, muito competente nesta arte de inflamar e acalmar nossos ânimos em diversos jogos da seleção, reafirmou: “foi apenas um jogo”. Como brasileiro esclareço que não foi apenas um jogo e sim expectativa de toda uma nação em superar as adversidades diárias impostas pelo jogo da vida.
A fala do Galvão não espantou nossa decepção, mas foi tranqüilizadora. Ele evitou que em lágrimas os mais afoitos saíssem às ruas em alta velocidade, bebessem além do normal ou entrassem em confusões.
Quando você disse “foi apenas um jogo”, naquele momento pareceu-me que você estava tentando nos tranqüilizar. Hoje, com a emoção já refeita e o coração desacelerado, percebo que de fato você jogou “apenas um jogo” porque já é ídolo do futebol mundial, tem fama, prestígio, dinheiro e um grande amor - razões que mobilizam o ser humano.
O que para você “foi apenas um jogo” para nós foi motivo de pararmos o país inteiro. Desejávamos vê-los jogar e consagrarem-se campeões. Apesar do status já adquirido como referências mundiais, nós estávamos torcendo para vocês ganharem a copa e obterem os bônus merecidos. Acabaram ficando com o ônus da falha e nós com a decepção. Queríamos apenas a taça!
Tenha certeza que toda vez que você defendia uma bola, existia uma multidão em pensamento ao seu lado. Suas mãos talentosas estavam com as de 190 milhões de mãos fechando o gol. Quando você voava para interceptar a bola, voávamos também. Enfim, não era para acontecer. Talvez em 2014 possamos ser bem sucedidos e conquistarmos a copa em nosso país. 
Espero que o próximo jogo seja “O JOGO”, não apenas “mais um”.

Abraços do seu admirador, João Rios.

Rafael não cuidou de Rafael

Nesses últimos dias ando enfastiado com o noticiário brasileiro repleto de notícias ruins por causa das perversidades e malvadezas de algumas pessoas. Por isso tenho mudado o hábito com relação aos jornais noturnos na televisão. Vejo-os cada vez menos e ouço mais o rádio. Enquanto no rádio só temos o som, na televisão, além do som, temos a imagem, que afeta muito mais a nossa sensibilidade.
Essas perversidades e maldades são na verdade a falta de cuidados que deveríamos ter com os nossos conterrâneos e irmãos brasileiros. Por mais diferentes que sejamos uns dos outros individualmente, somos todos “farinha do mesmo saco”. Vivemos no mesmo país, subordinados ao mesmo Presidente, torcemos pela mesma seleção, estamos todos na mira do mesmo garoto que fugiu da escola, e por aí vai.
Só para relembrar, citarei alguns desses casos que me angustiam. O primeiro é o caso do covarde goleiro Bruno, que participou do assassinato da ex-namorada. O segundo diz respeito ao relato a seguir:
Há poucos dias eu estava no Rio de Janeiro e peguei um táxi em Ipanema, por volta da meia noite. Quando passávamos por uma rua estreita ladeada de prédios residenciais o motorista apertou o dedo na buzina com toda a força. Fiquei indignado com aquela falta de educação e comentei com a moça que estava ao meu lado:
- Ainda vou entender o que leva uma pessoa buzinar numa área residencial em plena madrugada.
O motorista ficou bravo e perguntou com cara feia:
- Você viu o que ele fez?
Diante da minha negativa ele continuou:
- O cara furou o sinal vermelho, se eu não buzinar, vem outro atrás e pega a gente, bem aí do seu lado.
Ainda tentei justificar a minha preocupação:
- Mas não é só diminuir a velocidade? Fico pensando em quem está dormindo a esta hora e é acordado por uma buzina.
Vendo que o clima poderia esquentar, a moça justificou:
- Seu motorista é que ele é de Brasília. Estive lá há poucos dias e o pessoal não buzina e pára na faixa de pedestres. O trânsito de lá é muito diferente do daqui.
Mais calmo (a voz feminina é um bálsamo para acalmar os homens), o motorista contou que certa vez estava em Curitiba com a filha. Andavam pela rua quando ele jogou a bagana de cigarro no chão. Deu uns passos, voltou, catou a bagana e jogou-a numa lata de lixo. Embasbacada, a filha comentou:
- Pai, o que o senhor fez? Nunca o vi jogar lixo na lixeira!
- Filha, é que olhei em volta eu não vi nenhum papel na calçada. Só jogo lá no Rio porque todo mundo joga. Aqui é diferente.
Conversamos mais algumas amenidades e os ânimos se acalmaram.
Quem chega a Brasília pela BR 040, vindo das regiões Sul ou Sudeste, avista uma placa logo no início do Distrito Federal que diz: “Em Brasília evitamos buzinar”.
A tolerância que temos de evitar buzinas e parar na faixa é o cuidado que nós brasilienses temos com o outro. Em ambos os casos quem tem um pouquinho de tolerância beneficia outra pessoa e recebe um sorriso ou aceno cordial. É melhor para todo mundo.
Quando somos intolerantes recebemos de volta a ira do outro com a mesma intensidade.
Há poucos dias minha filha enviou-me um e-mail com cenas do massacre de golfinhos na Dinamarca. Diz o e-mail que esse massacre é um ritual dos jovens dinamarqueses para provarem que estão prontos para sair da adolescência e entrar na fase adulta. Os golfinhos são massacrados porque vêm à praia apreciar o movimento e brincar com os banhistas.
Confira as imagens nos endereços:
http://rpalmela.blogspot.com/2008/04/no-reino-da-dinamarca.html http://www.fotologando.com/2009/09/massacre-de-golfinhos-na-dinamarca.html http://www.clubeletras.net/blog/mundo/o-massacre-dos-golfinhos-na-dinamarca/
Minha filha ficou indignada com essa história e pediu que eu assinasse o abaixo-assinado que estava no e-mail. Assinei. Logo em seguida ela telefonou pedindo que eu fizesse alguma coisa, já que trabalho no Senado Federal.
Muito orgulhoso da atitude dela e entendendo o arroubo característico de sua juventude, expliquei que é muito complicado um país interferir na vida cultural de outro país. Inconformada, ela disse que eu era igual àqueles dinamarqueses assassinos dos golfinhos. Vendo seu inconformismo, eu disse que poderia falar com um senador da Comissão de Relações Exteriores para chamar o Embaixador da Dinamarca, a fim de que ele pudesse explicar aquela crueldade. Assim os senadores mostrariam que o Brasil não concorda em matar golfinhos. Do outro lado da linha ouvi seu estrondoso grito de alegria: "Taí, a solução é essa. Vou levar meus amigos com cartazes e faixas de protesto no dia que ele estiver falando". Concordei, mas ponderei:
- Filha, agora imagine o embaixador sentado, a sala cheia de senadores, repórteres e faixas. Imagine também ele perguntando para nós brasileiros: "Por que vocês estão tão preocupados com a morte dos golfinhos se vocês são o país que mais mata no trânsito? Como vocês querem salvar os golfinhos se suas crianças estão morrendo de fome nos semáforos e embaixo dos viadutos? Quem são mais essenciais para a humanidade, os nossos golfinhos ou as suas crianças? Cerca de 99% das nossas crianças estão alfabetizadas; Enquanto isso, apenas 11,5% das crianças brasileiras estão alfabetizadas e somente metade dos seus jovens terminam o ensino médio. Senhores e senhoras, não queiram salvar os golfinhos enquanto não cuidarem dos seus anciãos maltrapilhos perambulando pelas ruas".
Minha filha disse que eu era um conformado, que isso era discurso de quem não quer mudar o mundo. Mas antes de desligar o telefone, prometeu que iria fundar uma ONG para proteger os golfinhos. Elogiei a iniciativa e sugeri que ela primeiro arrumasse a casa dela antes de querer arrumar o mundo. Mas no fundo do coração fiquei orgulhoso do cuidado dela com os golfinhos.
Por último, quero lembrar o caso do Rafael Bussamra, que no dia 20 de julho atropelou e matou o músico Rafael Mascarenhas, filho da atriz Cissa Guimarães. Por que o Rafael não cuidou do Rafael? Se o Rafael dirigisse com cuidado não teria causado tanta dor à sua família nem à mãe do Rafael.